Coronavírus – O Brasil está pronto?

O coronavírus e a engenharia clínica no Brasil, tem tudo para dar certo. No país, somos experientes no gerenciamento das doenças infecto-contagiosas e muito bons em medicina tropical e dos viajantes. Por esta razão me sinto amparado, de verdade. Não é o primeiro corona nas nossas vidas e, nós que atuamos em hospitais sabemos disso. Só precisamos fazer o que já sabemos, usar o que já deu certo nesse tipo de transmissão. Aqui, não podemos estar enganados, a transmissão também se dá, inclusive pelo ar. O vírus Ebola por exemplo, tem outros mecanismos de transmissão, não tivemos a presença dele no Brasil, mas temos uma certa expertise no assunto e também nos preparamos para ele no passado. Conhecemos as armas, só precisamos praticar e, mais ainda, levar estes tipos de conhecimento para a população em geral. Engenharia clínica tem sim, o seu papel político e social.

O Ministro da Saúde fala da gente

Bom, depois da convocação do Ministro da Saúde, a gente ficou mais em evidência ainda. Isso é ótimo pra nós que temos interesse que a profissão consolide, avance e produza cada vez mais, contribuições boas e inesperadas para a sociedade em geral. Para explorar possíveis respostas e atitudes construtivas e pertinentes neste momento, vou partir da minha experiência e sugerir algumas condutas que acho viáveis para uma primeira aproximação com a equipe da assistência.

Antes de conhecer a engenharia clínica, que foi em 1989, eu conheci o controle de infecção hospitalar. Eu trabalhava num hospital legal e que albergava a sede da APECIH (Associação Paulista de Estudos e Controle de Infecção Hospitalar), da qual eu fui membro do Conselho Fiscal, isso a partir de 87. Lá aprendi muito sobre infecções hospitalares. Tinha professores como Dr. Antônio Tadeu Fernandes, Dra. Denise Cardo e Arq. Vital de Oliveira Ribeiro Filho que, ainda hoje, felizmente, militam na área. Continuei estudando o tema porque eu ainda gosto dele.

Como resultados destes estudos, colecionei uma série de observações sobre o papel dos engenheiros no controle de infecção hospitalar. Isso está posto em diversos documentos já publicados como, por exemplo, o Manual de Segurança no Ambiente Hospitalar do Ministério da Saúde; o livro Segurança nas Instalações Hospitalares (6a. edição) da Editora SENAC; o livro HandBook of Clinical Engineering (1a. e 2a. edição) da Elsevier e também no livro Infecções Hospitalares e suas Interfaces na Área da Saúde da Editora Atheneu, que foi prêmio Jabuti no Brasil, em 2001, além de vídeos e palestras que faço sobre o assunto. E o que eu aprendi nestes 32 anos???

Engenharia clínica, prepare-se para ir até a beira de leito

Antes de tudo, trabalhe em conjunto com a assistência, o mais próximo possível. Olho-no-olho, é essa a natureza da prestação de serviços, não tem produto acabado na prateleira.

Nossa presença, próximo da beira de leito pode ser requerida a qualquer momento, vocês já sabem muito bem disso. Por isso é importante seguir as instruções da Enfermagem e Corpo Médico e agir como você foi treinado.

Procure a CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar) e obtenha todas as informações se ainda não foi treinado. É possível que você seja questionado também em termos de engenharia, por isso, fundamente suas recomendações em evidências científicas ou documentos com grau de recomendação relevantes para cada caso que você estiver vivendo. Você deve aprender muito fazendo isso.

Vocabulário é importante

Pois é, vocabulário é importante, já dizia o Chacrinha, “quem não se comunica se trumbica”. Você percebe quando um colega mais novo, pergunta o que é PEEP, CPAP, SIMV ou BIPAP e, a gente vê o quanto resolve termos uma conversa com colegas mais preparados. Parece que avançamos mais e mais rápido. Mas, não é pra desanimar, é preciso avançar mais. Quem não está por dentro do tema precisa se esforçar um pouco mais e aprender coisas novas.

Outro ponto relevante, é saber classificar áreas e artigos hospitalares em relação ao controle de infecção hospitalar. É relevante, não podemos confundir as coisas quando a gente manda uma mensagem. Eu já discorri sobre isso em várias ocasiões, só não tinha falado que é uma classificação proposta por Spauding em 1960, que pode ser verificada num vídeo rápido que temos no nosso canal no YouTube. Uma das situações vividas por nossos colegas na Itália foi a rápida saturação de leitos de UTI e indisponibilidade de equipamentos para todos.

Quando pensamos em áreas, uma das orientações é que estejamos atentos para a possibilidade de criar outras novas, ou seja, ampliar a capacidade de atenção com áreas ventiladas. Com aparelhos médicos estamos mais presos, não dá pra comprar assim no balcão mas, em termos de escolha de áreas, podemos fazer isso muito bem, se estivermos preparados para ajudar.

Medicina Tropical e Medicina dos Viajantes – Tuberculose

Nem todo mundo sabe mas, há no Brasil um grupo de médicos e profissionais da assistência que tem muito interesse nas doenças tropicais e na medicina dos viajantes. Tem um turma que não para quieto no lugar e, roda o mundo inteiro. Ele ficam portanto, sujeito aos mais variados tipos de doença, aqui em particular, as infecciosas.

Aprendi muita coisa com eles e, vou compartilhar aqui, meu mais novo aprendizado. Naquela época eu pude me reunir com médicos de renome como o saudoso Dr. Fernando Fiuza, do Instituto Clemente Ferreira em São Paulo. Eu o conheci quando fui chamado a ajudar na solução de um sistema de coleta de escarro, pela indução de tosse, pelo uso da pentamidina. A solução de engenharia dada foi aceita e terminei, por dedicar uns bons anos no conhecimento mais detalhado desta doença e saber mais sobre como contribuir. Isso já era próximo dos anos 2000.

Neste período participei de muitos eventos e, por três vezes consecutivas e em diferentes locais, palestrei ao lado do Dr. Marcelo Luiz Carvalho Gonçalves, um especialista em tuberculose, veja um dos artigos dele, aqui escrito para o BOLETIM DE PNEUMOLOGIA SANITÁRIA da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). Ocorre que sempre havia um desconforto entre nossas apresentações. Eu falando das possibilidades de controle de temperatura, umidade, ruído, renovações, pureza do ar etc, respaldado por normas e tudo mais e, ele por sua vez, com medidas mais brandas como abrir janelas e portas, deixar o sol entrar e estas coisas. No final, sempre dava problema com as perguntas dos participantes. Usar as medidas brandas ou um sistema climatizado, dentro da norma? O fato é que nunca abri mão do controle, de ter tudo sempre ao alcance das mãos e não podia recomendar nada além daquilo que eu tinha aprendido na literatura e por várias experiências práticas atuando na área. Ultimamente tenho pensado no Dr. Marcelo todos os dias, hoje dou pra ele a razão. Eram realidades diferentes. Eu trabalhando para bons hospitais e ele trabalhando com a população.

A tuberculose é transmitida via ar, inclusive. É uma área bem mapeada onde há muitas recomendações que venho acompanhando há mais de 25 anos. O que nós da área de engenharia podemos fazer? A recomendação que aprendi no guideline do CDC é manter 6 a 12 renovações de ar por hora e ainda, manter pressão negativa no ambiente. Tenho mais vídeos no YouTube falando sobre isso pra quem quiser saber mais. É assim que se faz quando pode. Quando não pode, prefiro recomendar as menções do Dr. Marcelo. Áreas ensolaradas, ventiladas, uso de ventiladores axiais, portas abertas e tudo mais que promova a renovação de ar nos ambientes. Ajuda muito na prevenção desta doença. Estudem um pouco mais sobre o tema.

Ampliando áreas de atenção em UTI

Quando não temos ambientes climatizados em quantidade suficiente, só resta trabalhar para ampliar a capacidade de atenção do estabelecimento de saúde. Então qual seria uma área ideal para propormos uma UTI provisória, uma nova área crítica do ponto de vista de infecção hospitalar? Claro que você vai ter que pensar em tudo com os outros. Elétrica, gases, comunicação paciente enfermeiro, monitorização, aparelhos de terapia e outros como os de tecnologia assistiva (cadeira de rodas por exemplo). Vai ter que fazer isso se o “bicho pegar”. Por este motivo não espere, comece a avaliar a situação particular do seu hospital agora. Onde poderíamos criar mais leitos? Onde é melhor? Onde é pior? Qual a razão? Seja qual for o local, não deixe de considerar a capacidade de renovação que existe no ambiente e o que você pode fazer para melhorar. Não deixe de pensar soluções que possam ser aplicadas mesmo com poucos recursos com uso de ventiladores. Mais que conforto no momento, precisamos de conter um microrganismo que se desloca pelo que é chamado em alguns meios, de material particulado. Contendo este material, contemos o vírus. Saiba mais no manual da OMS/OPAS – Organização Mundial e Pan-americana da Saúde, sobre como diagnosticar seu preparo contra desastres que, neste caso, se aplica às ameaças biológicas.

Reta final

Nesta reta final, estou em casa como todos, aplicando o velho truque do isolamento que só funciona quando é feito do modo correto. Embora não tenhamos sistema IT-Médico para oferecer a todos (tenho minhas dúvidas do quanto ele ajuda), teremos energia elétrica, água, gases e outros insumos da nossa área mas, climatização que é relevante neste caso, não. Podemos até mesmo dispor de leitos mas, sem a climatização necessária. Nesses casos, além da escolha de um bom ambiente, devemos nos valer dos EPIs. Tarefa para o pessoal do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), sempre que nos referirmos à segurança dos trabalhadores.

Eu estou confiante. Confio no sistema de saúde que temos por aqui. Todas as vezes que precisei, funcionou. É um trabalho que vem sendo feito fazem muitos anos e há muitos envolvidos. Temos ilhas de excelência no país mas que, mesmo elas, não conseguem dar conta da situação.

Se piorar como aconteceu na Itália além de tomar cuidado consigo mesmo, é possível que você tenha que cuidar de alguém. Minha recomendação final, abram as portas e as janelas. Sempre que for possível e deixem o sol entrar. Nossos dias tem sido mais quentes do que na Itália e não precisamos ficar fechados durante a noite, devido a um frio de 4 ou 5°C. Posso mudar de ideia, se piorar muito mas hoje e nesse momento, o Dr. Marcelo está coberto de razões. Se o curso da doença não mudar, é o que temos para hoje!

PS: Quem quiser receber o Manual de Segurança no Ambiente Hospitalar, mais completo que o que existe no site da ANVISA (está sem índice, autores e referências bibliográficas), mande por favor um e-mail para: escola@engenhariaclinica.com

Obrigado pelo seu tempo!

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